Muito se tem falado sobre a possibilidade de cães, gatos e outros pets se infectarem pelo vírus que causa a Covid-19, e sobre a transmissão da doença dos pets para as pessoas. As notícias se disseminam rapidamente pela internet, nos grupos de whastapp e redes sociais.
Todos procuram um texto confiável, que nos faça entender de uma vez por todas o que de fato ocorre. Mas a medicina não é uma ciência exata. Decisões importantes são tomadas com base em probabilidades, em informações inconclusivas.
Considero que é muito mais importante aprendermos a interpretar os textos, e procurar assim formar nossa própria visão sobre a questão, ao invés de replicar posts e ideias que são disseminadas por pessoas ditas formadoras de opinião, influenciadores digitais ou apresentados em veículos de imprensa no horário nobre da TV aberta.
Entendendo melhor o problema
Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O vírus atualmente associado à pandemia é um novo coronavírus, chamado pelas autoridades de SARS-CoV-2, que causa a doença COVID-19.
A Covid-19 é uma doença nova. Todo conhecimento científico produzido até o momento é fruto de trabalhos publicados nos últimos um ou dois meses. São dezenas de artigos produzidos diariamente no mundo todo. Centenas de pesquisadores trabalhando intensamente para elucidar vários aspectos da doença.
Como veterinário especialista em informática, ou seja, zero de experiência em infectologia ou epidemiologia, ativei meus contatos com o objetivo de encontrar um atalho que me levasse direto aos trabalhos sérios sobre este tema. Para minha surpresa, bastou um único pedido no grupo de veterinários da minha turma para chegar a um vídeo do prof. Hélio Autran de Moraes, Oregon State University. Vou resumir o conteúdo em uma linguagem mais acessível, para que as pessoas de fora do ambiente acadêmico possam compreender melhor.
Os cientistas avaliam o risco de um animal doméstico contrair o vírus SARS-CoV-2 respondendo três perguntas:
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O vírus consegue entrar na célula?
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Para responder esta pergunta os pesquisadores realizam experimentos in vitro, ou seja, realizados em laboratório, fora do organismo animal.
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O vírus consegue se ligar ao receptor?
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Para que o coronavírus sobreviva na célula do hospedeiro, precisa se ligar a um receptor específico, algo como uma conexão do tipo chave-fechadura. O vírus possui uma determinada proteína que funciona como a chave, e a célula do animal possui uma molécula denominada receptora, que seria a fechadura. Chaves e fechaduras sempre existem, mas a questão é saber se elas se encaixam. Isto pode ser feito por um software de computador, que faz uma avaliação tridimensional do conjunto chave-fechadura, e avalia a possibilidade delas se encaixarem.
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O animal desenvolve a doença?
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A resposta a esta pergunta pode ser obtida através de uma inoculação experimental, ou seja, o animal é colocado em contato direto com uma quantidade de vírus suficiente para que ele seja contaminado, e em seguida, analisam os sinais clínicos da doença, como a dificuldade respiratória, pneumonia e outros sintomas característicos.
Características da doença em animais domésticos
Em sua apresentação, Autran mostrou como os cientistas estão respondendo estas perguntas considerando vários animais (hamsters, camundongos, bovinos, equinos e outros), mas vou comentar apenas suas observações sobre cães e gatos.
Segundo Autran, pesquisadores conseguiram demonstrar através de experimentos in vitro, que o vírus consegue entrar na célula de cães. Nos gatos os resultados são inconclusivos. Os sistemas de avaliação por computadores mostraram que é provável que a proteína do vírus se encaixe nos receptores das células destes animais, ou seja, chave e fechadura podem sim se encaixar. E por fim, trabalhos científicos envolvendo inoculação experimental mostraram que gatos desenvolvem a doença, mas nos cães a resposta foi um “talvez”.
Avaliando com mais cuidado os experimentos realizados em animais inoculados com o vírus, Autran observa que cães e gatos produziram anticorpos para o SARS-COV-2, mas não houve a manifestação de sinais clínicos característicos em nenhum dos casos.
Transmissão de pets para pessoas
A mensagem que se torna clara ao analisar cientificamente a ocorrência de Covid-19 em animais domésticos é que não se pode concluir nada com absoluta certeza. O número de estudos ainda é muito pequeno, poucos animais foram estudados e a doença é muito nova.
Em sua conclusão, Autran afirma que o risco de transmissão de pets para pessoas é muito baixo, próximo de zero, mas há um moderado grau de incerteza justamente devido a limitação de informações.
Em resumo, cientistas consideram que o risco de transmissão da Covid-19 de cães e gatos para pessoas é zero. É certo que cães e gatos podem sim se infectar com o vírus SARS-COV-2. E não há motivos que justifiquem a realização de testes em animais domésticos.
Hoje é 19 de abril de 2020. Boa parte da comunidade científica está trabalhando para entender melhor a doença e sua relação com animais de companhia. Certamente teremos novidades nos próximos meses.
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