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O polêmico uso de nutracêuticos na medicina veterinária

A Nutracêutica já é classificada por muitos como uma nova disciplina, contudo, uma parte da comunidade científica a considera mais um termo de marketing do que propriamente uma área da medicina veterinária.

Segundo Dr. Chris Basu, da Royal Veterinary College, University of London, “nutracêuticos são alimentos, ou compostos encontrados nos alimentos, que possuem propriedades funcionais; não são classificados como drogas e não estão sujeitos à legislação sobre drogas”.

Não são medicamentos, mas possuem propriedades funcionais e causam algum efeito benéfico nos animais. Pessoas que fazem uso de nutracêuticos em seus cães e gatos normalmente relacionam estes produtos a prevenção de doenças, melhor qualidade de vida e valorizam a importância do alimento natural.

Além disso, muitos tutores acreditam que, o simples fato de o produto não ser processado pela indústria, já o colocaria em um patamar superior em qualidade. São pré-conceitos, criados por campanhas de marketing, e considerados inquestionáveis por boa parte das pessoas.

Veterinários muitas vezes prescrevem nutracêuticos como suplementos, com a preocupação de garantir ao paciente, a ingestão de substâncias consideradas essenciais em determinados casos.

Fabricantes de ração, atentos a estas necessidades, criaram produtos que já contém algumas destas substâncias. O uso destas rações em alimentadores automáticos garantiria a ingestão correta de nutrientes essenciais. A adoção destes equipamentos, aliado à escolha da ração adequada para cada situação, permite calcular a oferta de quantidades diárias de alimento ingerido com precisão, e consequentemente, do suplemento a elas adicionado.

O alimentador automático pode ainda ser usado com uma mistura balanceada para um caso específico, garantindo maior precisão no cálculo das quantidades ingeridas nestas situações.

Em muitos casos, mesmo adotando estas tecnologias na alimentação animal, o uso do nutracêutico, ou alimento funcional, pode ser indicado.

Para que um alimento seja considerado funcional é necessário demonstrar que ele pode afetar beneficamente uma ou mais funções no corpo, além de possuir efeitos nutricionais que promovam o bem-estar e a saúde do animal, ou ainda possam contribuir para a redução do risco de uma doença.

O mercado global dos nutracêuticos está crescendo. Veterinários prescrevem estes produtos para tratar, gerenciar e prevenir uma variedade de condições. Mas alguns pesquisadores colocam questões importantes como:  Quanto de fato sabemos sobre os nutracêuticos? Estamos usando-os de acordo com as evidências? Os resultados estão sendo publicados?

O fato é que, sem evidências confiáveis, podemos estar negligenciando tratamentos úteis ou mesmo promovendo aplicações inúteis.

Depois de analisar alguns artigos científicos, vejo que nutracêuticos tem sim um papel importante na medicina veterinária, mas talvez os benefícios estejam sendo supervalorizados por conta de boas campanhas de marketing.

Selecionei apenas dois nutracêuticos que são largamente utilizados, e cuja eficácia é praticamente um consenso entre veterinários, mas refutada por alguns pesquisadores.  Vamos a eles então:

 

Ômega 3

Os ácidos graxos poli-insaturados, destacando as séries ômega 3 e ômega 6, são encontrados em peixes de água fria (salmão, atum, sardinha, bacalhau), óleos vegetais, sementes de linhaça e nozes. Esses ácidos graxos são chamados de essenciais, pois o organismo não consegue produzi-los.

O uso de nutracêuticos contendo ômega 3 e ômega 6 têm sido relacionados principalmente à melhoria da qualidade da pele e pelagem. Vários estudos descrevem também a capacidade destas substâncias em modificar respostas inflamatórias e imunológicas em cães, bem como as relações com o desenvolvimento neurológico em filhotes.

Dr. Chris Basu avaliou o uso de ômega 3 em cães com diagnóstico de artrite, e segundo ele, as dietas que contêm ômega 3 são seguras e podem ser usadas juntamente com terapias estabelecidas, mas afirma que existem poucos estudos de longo prazo nesta área.

 

Glucosamina e Sulfato de Condroitina

Normalmente oferecidos juntos em um único produto, estas duas substâncias fazem parte da construção da cartilagem. Embora o mecanismo de ação não seja totalmente conhecido, são substâncias muito usadas em animais com doenças articulares degenerativas.

Em estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa, Renato Barros Eletério e colaboradores, avaliaram o uso de nutracêutico veterinário à base de sulfato de condroitina e glucosamina, na reparação de defeitos articulares de 48 cães. Os animais foram divididos em grupos que receberam o suplemento durante 15 a 90 dias, nas doses recomendadas pelo fabricante.

Os pesquisadores concluíram que “o produto na dose, formulação e no período de administração utilizados não proporcionou melhora dos sinais clínicos e não influenciou radiograficamente o processo de reparação dos defeitos”.

O Dr. Chris Basu segue a mesma linha ao afirmar que os resultados de testes em humanos são ambíguos, assim como em cães, e destaca a importância da realização de mais testes de longa duração.

Nutracêuticos para uso veterinário não são medicamentos e, portanto, são administrados na forma de suplemento nutricional independentemente de prescrição.

Estas evidências que apresento neste texto são fruto de uma pesquisa rápida e superficial, sem qualquer pretensão nortear o uso de nutracêuticos por veterinários.

O objetivo aqui é mostrar a importância de estudos científicos e ressaltar que, ainda que os efeitos benéficos sejam observados por veterinários que os prescrevem, a eficácia de nutracêuticos é sim questionada por pesquisadores, que se baseiam em ensaios e testes conduzidos e publicados com o aval de universidades respeitadas, dentro e fora do Brasil.

 

Veja mais…

Sulfato de condroitina e glucosamina na reparação de defeitos osteocondrais em cães – análise clínico-radiográfica. ELEOTERIO, Renato Barros et al .Glucosamine and chondroitin sulfate in the repair of osteochondral defects in dogs – clinical-radiographic analysis. Rev. Ceres,  Viçosa ,  v. 59, n. 5, p. 587-596,  Oct.  2012 .Availablefrom<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-737X2012000500003&lng=en&nrm=iso>. accesson  18  Nov.  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0034-737X2012000500003.

 

Food For Thought in Evidence Base for Nutraceuticals. Vet Times, Christopher Basu, Ellen Holding February 10, 2014. accesson 18 Nov. 2019. https://www.vettimes.co.uk/article/food-for-thought-in-evidence-base-for-nutraceuticals/.

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